Quando “Os Jetsons” estreou lá atrás, pouca gente botava fé que aquele futuro estaria tão perto do nosso cotidiano. A série acabou de bater a marca de 58 anos e, olhando em retrospecto, é até bizarro o quanto eles acertaram na mosca. O desenho nos apresentou a um mundo de carros voadores, cidades flutuantes e trabalhos totalmente automatizados. Tinha até a Rosie, aquela robô clássica que segurava as pontas na limpeza e cuidava da molecada. A brincadeira começou tímida, com só 24 episódios, mas fez tanto barulho que ganhou uma sobrevida com capítulos inéditos entre 1984 e 1987. O mais louco é pensar que essa foi a primeira transmissão a cores da rede ABC, numa época em que a maioria das empresas ainda achava que investir nessa tecnologia era dar um tiro no escuro.
A visão que eles tinham sobre o que seria o nosso dia a dia era assustadoramente precisa, e moldou a forma como a cultura pop enxergaria o amanhã. Sabe aquelas chamadas de vídeo que a família fazia o tempo todo na série? Para nós, hoje, resolver a vida no FaceTime ou na câmera do WhatsApp é a coisa mais banal do mundo. E o George Jetson lendo as notícias da manhã numa telinha? É exatamente a nossa rotina de rolar o feed no tablet tomando café. Lembra do Elroy fazendo lição de casa batendo papo com uma máquina que resolvia problemas de matemática? Pois é, grita pela Alexa ou pelo Google Assistente na sua sala hoje e me diz se a gente já não vive nesse mesmo universo. Até a faxina pesada mudou. A Rosie não existe com aquele aventalzinho, mas os robôs aspiradores tipo o Roomba estão aí, mapeando a casa toda para limpar a sujeira. E tudo isso sendo consumido em telas planas gigantescas, que a série já antecipava enquanto o mundo real ainda apertava os olhos para enxergar imagens naqueles televisores de tubo enormes.
O Salto para a Era do Algoritmo
É irônico e fascinante constatar que a mesma tecnologia de telas finas e conectividade que “Os Jetsons” previu é exatamente o que sustenta a atual era de ouro do consumo de animações. Se antes a gente dependia da grade da TV aberta, agora os fenômenos explodem no streaming do dia para a noite. E falando em estourar, a Netflix e a Skydance Animation acabaram de emplacar mais uma pedrada com “Swapped”. O filme já chegou arrebatando o segundo lugar no top 10 global da plataforma, cravando 15,5 milhões de visualizações e umas impressionantes 26,4 milhões de horas consumidas só no fim de semana de estreia. Isso sem contar que ele pipocou no ranking diário de mais de 90 países.
A gigante do streaming até deu um jeito de alfinetar no relatório oficial que essa foi a maior abertura de três dias desde “Leo”, lá em 2023. A comparação é meio capenga, já que “Leo” saiu numa terça-feira (o que bagunça os gráficos de fim de semana) e logo de cara engoliu quase 35 milhões de views em cinco dias, mas o alívio nos bastidores é real. A divisão de animação deles estava suando a camisa para achar um hit de peso desde o fenômeno “KPOP Demon Hunters” no verão passado. Para se ter ideia do tamanho desse monstro, ele já está na sua 46ª semana seguida no top 10, comendo pelas beiradas com mais de 4 milhões de views semanais e acumulando a bizarrice de 617 milhões de visualizações e mais de 1 bilhão de horas assistidas.
Vozes de Peso e o Futuro na Plataforma
Dirigido por Nathan Greno, “Swapped” aposta numa premissa um tanto maluca, mas que gruda na cabeça: um bicho minúsculo da floresta e um pássaro imponente trocam de corpo do nada e são forçados a se juntar para sobreviver à aventura mais insana de suas vidas. A crítica gringa deu aquela torcida de nariz padrão, com avaliações de medianas a positivas (o crítico Andrew Morgan, por exemplo, deu 3 de 5 estrelas), mas o público simplesmente comprou a briga. A audiência está segurando a nota do filme em 89% lá no Rotten Tomatoes.
Muito desse hype imediato cai na conta de um elenco de dublagem que é peso-pesado. Colocar Michael B. Jordan e Juno Temple encabeçando essa dupla improvável, e ainda jogar os mestres da comédia Tracy Morgan e Cedric the Entertainer no bolo, foi uma tacada de mestre. Misture isso com uma enxurrada de cortes e artes vibrantes que viralizaram nas redes sociais batendo dezenas de milhões de visualizações, e a receita do sucesso está pronta. A tração do filme foi tão absurda que eles conseguiram desbancar “Apex” do primeiro lugar global recentemente, assumindo a coroa do dia 5 de maio. A verdadeira prova de fogo agora vai ser o embate direto com “Remarkably Bright Creatures”, que chega com tudo nesta sexta-feira.
O histórico de engajamento da Netflix deixa claro que as animações têm uma cauda longa absurda, rendendo frutos e prendendo a atenção da galera por anos a fio. E o calendário de lançamentos promete manter a roda girando. Mais pro final do ano teremos “Steps”, que, se abraçar de vez a vibe de princesa moderna da Disney, tem tudo para ser lucro certo. O grande mistério fica por conta de “Ray Gunn”, também da Skydance, que mira num público um pouco mais velho e testa os limites do que costuma bombar no catálogo. Da futurologia engenhosa dos anos 60 às narrativas virais que dominam os algoritmos de hoje, a animação prova, repetidas vezes, que não tem limites para prender a nossa atenção.