A cultura pop e a alta cultura, apesar de habitarem universos supostamente opostos, muitas vezes partilham de uma obsessão bem específica: a vontade de desvendar a gênese das coisas. É um exercício narrativo curioso que venho observando. A gente quer entender como o mal ganha forma da mesma maneira que tenta decifrar a mente de quem passa a vida julgando o que é belo. Esse contraste bateu forte recentemente, quando dividi meu tempo entre a escuridão cronológica de A Primeira Profecia e a crueza exposta no documentário House of Criticism. Duas obras que, cada uma à sua maneira, nos obrigam a olhar para o passado para entender os monstros e as belezas do presente.
O Nascimento do Mal e a Burocracia das Linhas do Tempo
Falando do terror pela perspectiva nua e crua, a clássica franquia A Profecia acabou de ganhar fôlego novo. Logo no começo de abril, A Primeira Profecia aterrissou nos cinemas brasileiros, trazendo a Arkasha Stevenson na cadeira de direção. Ela também assina o roteiro junto com o Tim Smith e o Keith Thomas, a partir de um argumento do Ben Jacoby. É um filme que já chega com os dois pés na porta ao colocar em cena pesos-pesados como Bill Nighy, Ralph Ineson e a nossa eterna e brilhante Sônia Braga, dividindo espaço com a Nell Tiger Free e o Tawfeek Barhom.
O que chama a atenção, no entanto, é que esse lançamento chacoalha um pouco a estrutura que a gente já estava acostumado. A franquia, que já conta com seis longas e uma série de TV na bagagem, virou quase um quebra-cabeça temporal. Se você for purista, o caminho das pedras é a “Continuidade Original”. Você dá o play nesse longa de 2024, que funciona como um prelúdio milimetricamente pensado para o clássico do Richard Donner de 1976. Depois, é só engatar a primeira e seguir a ordem de lançamento: A Profecia II (1978), O Conflito Final (1981) e fechar a tampa do caixão com O Despertar (1991). No fim das contas, rastrear a origem do Anticristo Damien Thorn rendeu uns impressionantes 270 milhões de dólares nas bilheterias globais. Nada mal para o filho do diabo.
Mas a coisa pode ficar mais caótica. Existe uma rota alternativa puxada pela série Damien (2016), que simplesmente passa a borracha em todas as sequências dos anos 70 e 80 e se vende como a única sucessora legítima do filme original. O detalhe irônico é que a série rodou logo na primeira temporada. Para os que fogem de filmes com cara de velhos, também rola pular de A Primeira Profecia direto para o controverso remake de 2006. Sinceramente? A velha guarda sempre vai bater o pé dizendo que assistir na ordem de lançamento é a experiência definitiva, mas o cardápio está aí para quem quiser montar o próprio pesadelo.
A Anatomia de Uma Opinião
Analisar as engrenagens de uma franquia de terror requer um olho afiado para os recortes e continuidades da obra. É o tipo de rigor e vivissecção que moldou as carreiras de Jerry Saltz e Roberta Smith, que formam o casal de críticos de arte mais influente dos Estados Unidos nas últimas quatro décadas.
Essa dinâmica é o prato principal de House of Criticism, documentário dirigido pela Alison Chernick que estreou recentemente no Festival de Tribeca. Se você espera uma coletânea enfadonha de resenhas acadêmicas, esquece. Chernick tira a lente dos crachás de peso da New York Magazine (a casa dele) e do The New York Times (a trincheira dela até outro dia) e foca no CPF dos dois. O resultado é um retrato intimista sobre uma profissão em extinção no jornalismo moderno e sobre como é, de fato, ir dormir todos os dias com alguém que compartilha da mesma obsessão solitária de olhar para o mundo e tecer julgamentos sobre ele.
A química deles transborda na tela. Tem um momento brilhante em que os dois estão comendo num diner, jogando conversa fora sobre o início de tudo. A Roberta lembra da época em que dava uma força limpando os textos do Jerry, e ele, sem pudores, conta que vivia implorando por boas frases de abertura. A tirada dela vem seca e sagaz: “Eu achava que escrevia melhor pra você do que pra mim”. A cena diz muito sobre os dois. A câmera de Chernick escancara essa assimetria fascinante: enquanto a Roberta tem uma paciência quase religiosa e cirúrgica com os objetos que analisa, o Jerry atira para todos os lados num caos visceral e passional.
O filme passa bastante tempo no apartamento nova-iorquino deles, um espaço entulhado de obras dadas por fãs e dos indefectíveis copos tamanho família de refrigerante que o Jerry arrasta pra cima e pra baixo. Mas a força do documentário está em cavar as raízes dessas duas mentes. Roberta conta que cresceu no Kansas com uma mãe obcecada por estética, que vivia exigindo a opinião da filha sobre cada detalhe da casa. Foi ali, nessa cobrança materna por “bom gosto”, que germinou a crítica feroz que mais tarde trabalharia ombro a ombro com o escultor Donald Judd no Programa de Estudos Independentes do Whitney.
A bagagem do Jerry, por outro lado, é um soco. Aquele sujeito espalhafatoso das redes sociais carrega um trauma silencioso: na infância, a mãe o deixou no Art Institute of Chicago para passar a tarde consumindo arte e, duas semanas depois, cometeu suicídio. Sem funeral, sem conversas em família, com o pai casando novamente um ano depois. Ele só foi descobrir as circunstâncias reais da morte dela muito tempo depois. Entender que a necessidade desesperada dele de se conectar com a arte nasceu desse silêncio brutal muda tudo.
No fim das contas, a necessidade de preservar a própria essência é o que impera. Perto da conclusão, Roberta fala sobre a sua aposentadoria do Times em 2024. Ela conta, quase rindo, que não debateu a decisão com o marido; ela enviou o e-mail para o editor primeiro e só avisou o Jerry com a coisa já resolvida. O motivo? Sabia que, se falasse antes, ele ia querer ditar como o e-mail deveria ser escrito. Essa autonomia crua reflete bem como consumimos histórias e criamos narrativas, seja rastreando o mal encarnado numa fita de 1976 ou dissecando o olhar implacável de quem pauta a cultura novaiorquina. Fica a sensação de que certas origens, sejam elas diabólicas ou geniais, são difíceis demais de domar.