A economia argentina continua crescendo em 2026, mas os principais indicadores sociais e de preços mostram uma recuperação desigual. A pobreza subiu para 32,3% da população no primeiro semestre, quatro pontos acima do período anterior. Ao mesmo tempo, o Fundo Monetário Internacional reduziu sua previsão de expansão do produto interno bruto neste ano para 2,1%, bem abaixo dos 3,5% calculados anteriormente.

O contraste aparece depois do forte recuo da pobreza observado desde o início do governo de Javier Milei. O índice havia caído a partir do pico de 52,9% registrado no começo de 2024, mas voltou a subir nos últimos 12 meses. A indigência chegou a 7,5%, o desemprego a 7,9% e a informalidade alcançou 45% dos trabalhadores. Entre crianças, a vulnerabilidade permanece ainda maior.

A inflação mensal também voltou a acelerar. O índice oficial subiu 1,9% em setembro, ante 1,7% em agosto, e chegou a 33,4% em 12 meses. No acumulado do ano, o avanço foi de 23,6%. Habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis tiveram alta de 3,1%; educação, de 3%; comunicação, de 2,5%; saúde, de 2,4%; e alimentos e bebidas, de 2%.

O FMI agora espera inflação de 32,5% em 2026, acima da projeção de 30,4% divulgada em abril. Para 2027, a estimativa subiu de 15,7% para 21,2%. A previsão de crescimento do próximo ano também foi reduzida, de 4% para 3,5%. As revisões indicam que estabilizar preços e contas públicas não produziu, até o momento, uma recuperação uniforme de renda e atividade.

Os dados setoriais ajudam a explicar a diferença. Mineração, petróleo e agropecuária estão entre os segmentos que mais avançam, mas não compensam integralmente as perdas da indústria e da construção. A atividade econômica recuou 2,9% em julho frente ao mês anterior, deixando o país próximo de uma recessão técnica. Mais de 31 mil empresas fecharam desde o início do atual governo, segundo levantamento citado nas análises recentes.

O consumo enfraquecido também afeta os parceiros comerciais. As exportações brasileiras de veículos para a Argentina caíram 35,4% no primeiro semestre, e a participação do Brasil nas importações argentinas de automóveis passou de 82% para 56% em um ano. Modelos chineses e fornecedores de outros países ocuparam parte desse espaço enquanto as famílias argentinas reduziram compras.

A situação não cabe em uma leitura única de sucesso ou fracasso. A disciplina fiscal e a desaceleração frente aos piores meses de inflação representam mudanças relevantes, mas o aumento da pobreza, do desemprego e da informalidade limita o efeito social do crescimento. O desafio para a Argentina é transformar estabilidade macroeconômica em emprego formal, investimento produtivo e renda. Sem essa transmissão, o PIB pode avançar enquanto uma parcela maior da população continua sem perceber melhora no cotidiano.