“Faca na Cadeira”, de Leandro Badi. Diversão e esporte pra quem não espera sentado

Adrenalina. Ela vai lá em cima quando você assiste a um vídeo que mostra o paulistano Leandro Badi descendo e subindo numa pista de skate. O detalhe é que o skate é uma cadeira de rodas. Leandro leva um tombaço. Levanta. Cai outra vez. E de novo. Em outro vídeo, ele consegue e comemora. E assim vai praticando e divulgando a modalidade, na conta do Instagram que batizou de “FacaNaCadeira”.

“A primeira vez que vi algo assim foi num vídeo da internet, há alguns anos, mostrando um cadeirante pulando numa mega-rampa.”, conta Leandro.



No início deste ano ele foi procurar mais vídeos sobre o assunto e descobriu o WCMX, uma adaptação de BMX e Skate para cadeira de rodas.

A sigla significa Wheelchair Moto-Crossque é a adaptação de BMX e Skate para a cadeira de rodas. No início o nome era HardCore Sitting(Saiba mais abaixo.)

No Brasil, ainda há pouquíssimos praticantes, segundo Badi. No máximo, cinco.

“Depois que conheci o esporte, fiquei fissurado nos vídeos e reparei que as cadeiras eram diferentes e adaptadas para andar nas pistas. Elas têm amortecedores e um design especial. Então fui procurar quem fazia essas cadeiras e vi que no Brasil existe um fabricante, que fica em Rio Claro, São Paulo.”

Uma cadeira turbinada e sob medida

Então Leandro foi atrás e visitou duas feiras específicas de tecnologia e equipamentos para deficientes, onde viu demonstrações do esporte e ouviu explicações mais detalhadas. Aí experimentou a tal cadeira daquele fabricante.

Ela tem um design especial que permite descer rampas íngremes e atingir maior velocidade. E conta com uma estrutura e amortecedores feitos para aguentar os pulos e manobras.

Mas a cadeira precisa ter as medidas de seu dono. E então Leandro decidiu que queria uma.

Quando foi para Rio Claro tirar suas medidas, o vendedor o levou para sua primeira tentativa, em uma pista de lá, explicando antes o básico do esporte.

“Como a cadeira era emprestada e eu nunca tinha andado, não consegui fazer muita coisa, mas consegui entender e sentir um pouco de como seria andar: muita adrenalina.”, lembra.



Preparando o corpo

Naquele primeiro contato com a pista, Leandro percebeu que iria precisar de preparo físico para encarar a aventura. E aí foi treinar sério, enquanto sua cadeira não ficava pronta. Isso levou alguns meses e as seções de fisio foram focadas em fortalecimento do tronco.

“Quando fui buscar minha cadeira, o mesmo vendedor me levou para o primeiro “rolê” oficial e já consegui fazer alguns pulos e manobras. Foi nesse dia que senti realmente a adrenalina de andar. Mais que isso: a sensação de enfrentar e superar algo assustador. Foi demais! Este é o primeiro vídeo no meu instagram: @facanacadeira





Onde praticar?

 Leandro diz que costuma praticar no Centro de Esportes Radicais de São Paulo, no Bom Retiro.

E também na marquise do Parque Ibirapuera.

Ele diz que, neste tempo de modalidade, se acostumou tanto com a cadeira que até anda com ela na rua, fora dos treinos.







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“FacaNaCadeira”: independência e saúde, mesmo com tombos

Fortalecimento muscular e queima de calorias são só alguns dos benefícios que o WCMX promove.

Segundo Leandro, o esporte também pode ajudar muito na questão de independência do cadeirante, já que ele aprende a superar obstáculos como rampas e escadas, ainda mais quando falamos de um país com pouca infraestrutura de acessibilidade.

“Além disso, e o ponto que eu acho mais benéfico, é a diversão e oportunidades que o esporte proporciona. Você se sente mais capaz de superar obstáculos, de ir aos lugares não acessíveis e também de mostrar às pessoas que os cadeirantes/deficientes são pessoas como quaisquer outras, não são “doentes”.”

E continua:

“O benefício para quem tem lesão medular, que é o meu caso, seria o fortalecimento em geral, mas também o estímulo de músculos inferiores “desativados” pela lesão.”

 O nome FacaNaCadeira tem o mesmo bom humor de seu criador, Leandro Badi

 Mas de onde veio este nome, “Faca Na Cadeira”?

 “Depois da minha lesão, eu sempre tentei “amenizar” o fato de eu ser cadeirante com brincadeiras. Algumas pessoas ficam tensas e não sabem se podem falar sobre o assunto comigo, então eu gosto de quebrar o gelo com piadas. No filme Tropa de Elite, uma das frases que ficou famosa foi “Faca na caveira, nada na carteira”, fazendo menção aos soldados do BOPE. Eu adaptei a frase e brincava que eu era faca na cadeira, porque sempre fui muito ativo e independente.”

E os machucados?

Capacete, joelheira e muita emoção

 Quando você assiste a um vídeo que mostra o cadeirante se esborrachando no chão, o primeiro pensamento é: “Esse cara é maluco?”

Só que não. Ele usa todos os equipamentos de segurança (joelheira, cotoveleira, luvas e capacete),

e se prepara pesado para isso, treinando fortalecimento quatro vezes por semana, duas horas por dia.

Quando, aos 18 anos, Leandro sofreu o acidente que lesionou sua coluna, ele estava apenas num bar com uns amigos, sentado, conversando. Até que um sujeito pulou da janela e caiu direto em suas costas.

Depois disso, virou exemplo e inspiração para muita gente, com seu bom astral, determinação e carisma.

E, ao que tudo indica, o número de admiradores só deve aumentar, através de seu criativo e emocionante insta, o “FacaNaCadeira”.

 “É muito engraçado ver a reação das pessoas com um tombo. Todas querem vir te ajudar, mas faz parte do esporte você treinar a se levantar sozinho. Quando você se levanta, você vê no rosto das pessoas que elas começam a entender melhor quem nós somos.”



Você Sabia? …

Sobre o WCMX

No início, o nome era “HardCore Sitting”. O WCMX foi criado pelo melhor do mundo na modalidade, Aaron Fotheringham, que nasceu em 8 de novembro de 91. Desde os oito ele é cadeirante. A ideia veio de seu irmão, enquanto praticava BMX, e perguntou por que ele não podia fazer o mesmo, em vez de ficar ali só olhando. E por que não?

Então surgiu a modalidade, depois que Aaron se empenhou na fabricação da cadeira ideal que, segundo diz: “é praticamente indestrutível”.

O rapaz faz muito sucesso com seus filmes e participações em grandes eventos.

Mas ele nem considera seu treinamento um esforço. “Não penso nisso como prática. Penso nisso como uma maneira divertida de viver minha vida.”.

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Evelyn Heine

Autora infantil, formada em Jornalismo pela Cásper Líbero, trabalhou por mais de 10 anos na Editora Abril. Heine é responsável pelo conteúdo do site e blog “Divertudo”. Gosta de arte, design, música, literatura e tudo que envolve criatividade. Seu livro mais recente chame-se “Dois Gatos”.

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